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Ió, Zé VICENTE!


04/10/2007

Na última vez que esteve no Oficina, Zé Vicente fez parte do espetáculo. Na cena da Lôca, incentivado pelo Zé Vicente e atores mirins do Bixigão, ele dançou na entrada do teatro.

Lá dentro, antigos amigos assistiam. Sua irmã Maria Antônia, seu amigo Antônio Bivar, as atrizes Maria Padilha e Maria Ximenes, uma platéia cheia, além do elenco de ‘Santidade’, a peça escrita por ele e vetada pelo Costa e Silva. Ninguém sabia que essa era, de certa forma, sua festa de despedida.

Zé Vicente morreu dormindo, de parada cardíaca, dia 22 de setembro, um sábado. Foi encontrado na cama pela Maria Antônia. Zé Celso dizia que ele era o mais tropicalista dos dramaturgos, que seus textos deveriam ser impressos em papel de arroz, como as bíblias. ‘Ele escreveu versículos. É um autor eterno. Santidade foi escrita há 40 anos e pode ser considerada futurista – fala da sacralização da sexualidade, certifica o amor sexual. Sua linguagem é tão forte quanto a dos evangelizadores. É um dos melhores autores do mundo, pode ser comparado à Jean Genet. O último texto que li escrito por ele chama-se Zé Vicente Virtuoso, cujo protagonista é ele mesmo. Achei admirável, mas muito subversivo, talvez não entendam a ironia fina que há por trás’.

Nascido em Alpinópolis, Minas Gerais, Zé Vicente foi seminarista em Guaxupé, dos 12 aos 19 anos. Depois, vendeu doces na rua, foi bancário e professor de História até vir para São Paulo, estudar Filosofia na USP. Em 1969, escreveu ‘O Assalto’, também montada pelo Oficina, em 2004. Depois vieram vieram ‘Os Convalescentes’ (montada em Paris com Gilda Grilo e Norma Bengell, com apresentação de Simone de Beauvoir), ‘Hoje É Dia de Rock’ (1971, Prêmio Molière), ‘Última Peça’ (1972), ‘Ensaio Selvagem’ (1973), ‘História Geral das Índias’ (1974). Parou um pouco, foi viver na Europa. Nos anos 80, produziu ‘Diário Íntimo’, ‘Rock’n’Roll’ e ‘Fim de Século’.

Por que o Zé Celso não está aqui?

Nelson de Sá lembrou, em seu blog, do trecho de uma carta do Zé Vicente que falava de Zé Celso:

Há pouco, reli ‘Verdes Vales do Fim do Mundo’, de Antonio Bivar, que conta a passagem de ambos por Inglaterra e outros, no exílio voluntário de 1971, ano que, para muitos, foi o auge e o fim do sonho.

Ele reproduz uma carta de Zé Vicente, pouco depois de ambos se apresentarem no festival da ilha de Wight com Gil, Caetano, Gal. Na percussão, Zé Vicente, ‘banhado de lágrimas’, perguntava, ‘por que o Zé Celso não está aqui?’.

Mário Bortolotto também sente a falta de Zé Vicente. No blog Atire no Dramaturgo, ele escreveu sua homenagem, quase um epitáfio.

Lembro do dia que eu o conheci. Tava ensaiando ‘Santidade’ de autoria dele e com direção do meu amigo Fauzi Arap. Puta texto genial que foi censurado nos anos 60 e ainda permanecia inédito. Era o Zé Vicente acertando as contas com Deus, com sua religiosidade maldita de ex-seminarista. E ele fazia isso de forma brilhantemente poética. Lembro do dia que eu o conheci e fiquei tentando decifrar de onde vinha aquela explosão toda que eu tinha que dar conta num monólogo de cinco páginas no meio da peça onde eu cuspia imprecações e poesia como uma rajada de metralhadora. Fiquei tentando entender o sujeito que escreveu além de ‘Santidade’ outros clássicos da Dramaturgia Nacional (‘O Assalto’ e ‘Hoje é dia de Rock’). Fiquei sempre com essa imagem na cabeça. Do dia em que conheci Zé Vicente. Hoje o meu amigo Fauzi me ligou e disse que o Zé foi nessa. E foi dormindo de maneira tranquila. Foi acertar de vez as contas que estavam pendentes e com certeza vai resolver tudo dessa vez. Tive a sorte de conhecer o Zé. Vai com Deus, Brother. Cê tá na estrada que todos nós vamos trafegar algum dia com nossos automóveis arrebentados em alguma colisão maluca com aquela que chamamos de Sra. Inevitável. Sempre vou lembrar dia que conheci Zé Vicente.


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