29/12/2004
Montagem lapida os atores do grupo Oficina
SERGIO SALVIA COELHO
CRÍTICO DA FOLHA
Por muitos anos o teatro Oficina vem se impondo como um centro de vanguarda teatral, um ponto de encontro ritualístico e contestatário onde, em uníssono, platéia participante e trupe multimídia reinventam o teatro e o Brasil. Muito virá nesse registro, já que, mais do que por um patrocínio ainda aquém do seu valor, o Oficina se baseia na paixão de seus membros, que se mantêm à altura de seu criador, José Celso Martinez Corrêa.
Ensaios de dez horas diárias, anos a fio, para construir espetáculos nunca inferiores a três horas o ciclo completo de “Os Sertões” terá talvez mais de 24 horas, nos quais o coletivo e o espetacular predominam, acabaram no entanto deixando para segundo plano o aprimoramento individual dos atores. Para evitar isso, espaço foi criado para espetáculos mais curtos e íntimos, de autores contemporâneos. Fransérgio Araújo dirigiu o vigoroso “O Amante Brasileiro”, de Betty Milan, e está em cartaz em “O Assalto”, com Haroldo Ferrari, dirigido por Marcelo Drummond.
Este é o primeiro texto de José Vicente, que se lançava em 1969 como uma metralhadora giratória, questionando tanto o culto ao dinheiro da direita quanto o heroísmo narcisista dos que faziam “apropriações” armadas a bancos. Mantendo uma irreverência anarquista sem perder a compaixão pela incoerência do próximo, “O Assalto” se mantém atual.
Drummond, formado em Genet e Artaud, soube valorizar o aspecto ritualístico do texto do ex-seminarista, utilizando a luz de Allan Milani e a trilha de Fioravante Almeida como “leitmotiv” wagneriano, a cada vez que se menciona o culto ao chefe ou ao dinheiro. Não escamoteou a homofobia do texto, não restringindo, no entanto, na história de amor entre o faxineiro e o bancário, o alcance de denúncia social: o homossexualismo, mais do que contestação irreverente, é uma solidão secreta, que leva ao questionamento do mundo.
A grande força de Drummond é a direção de atores. Conseguiu adaptar o olho-no-olho dos grandes rituais oficínicos à intimidade do mezanino, onde cabem cerca de 50 pessoas. Seus atores colegas sabem, sem sair do personagem, dirigir os diálogos contundentes à platéia improvisada, estendendo a cumplicidade tanto aos que vieram atraídos pela transgressão quanto aos vizinhos do bairro, instigando sem incomodar.
Afinal, esse assalto é antes de tudo um assalto às convicções provisórias de cada um. Haroldo Ferrari faz o bancário que tenta contaminar um faxineiro com sua sede subversiva com uma delicadeza minuciosa, em uma atuação inesquecível. Fransérgio Araújo tem atuação mais exteriorizada, quase caricatural às vezes. Esse duelo de estilos acaba reforçando o conflito de universos do texto.
Da mesma forma, o que há de sistemático no uso da trilha e da luz acaba satirizado metalingüisticamente pelos atores, em uma saudável autodesmistificação. Mais do que um espetáculo bem-sucedido, “O Assalto” é uma conciliação inovadora entre o teatro épico e psicológico que vem completar a aventura coletiva do Oficina. Outras peças de José Vicente são anunciadas. Que venham à cena outros atores do Oficina, para essa orgiástica jam session.
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