13/12/2005
Desde a publicação do Manifesto Antropofágico, movimentos como o Tropicalismo e a própria idéia do projeto Teatro Estádio surgiram e, mesmo que de forma subjacente, rememoraram e rememoram o manifesto de Oswald de Andrade. Você acha que o Manifesto de 1928 foi, de alguma forma, atualizado pela ação destes e de tantos outros artistas ?
O Manifesto não foi atualizado. Em 28 Oswald declarava-se cheio do modernismo e coroava-se textualmente como o primeiro pós moderno do mundo. Há 77 anos este Manifesto vem se tornando cada vez mais atual, atuante e apetitoso pelo próprio movimento das multidões no mundo em franco movimento de descatequização ou mais afirmativamente de uma reaproximação do mundo pagão. Os artistas que tomaram essa comunhão, mastigaram esta hóstia, sentiram o sangue do deus do vinho, se empaturraram e obraram suas obras, tornando a releitura do Manifesto hoje cada vez mais reveladora (não simplesmente atualizando-o) e capaz para muitos de re-roteirizar suas energias combalidas pelos catecismos neo-capitalistas, neo-globais, neo-cristãos, neo-islâmicos, neo-cuecões-positivitas-comunistas. Os Poetas Concretos começaram sua decifração nos anos 50-60. Em 1967 uma velinha de sebo do ?Rei da Vela? trouxe luz; os acordes dytirâmbicos da ?Tropicália? de Caetano, escuta; os projetores solares da ?Terra em Transe? de Glauber Fé de Rocha, visão possessa; os parangolés do Hélio Oiticica, dança de palavras, comidas cruas e nuas, o tacto e contacto; a ?Santidade? peça erótica religiosa de Zé Vicente, tesão sagrado. Em 67, no Brasil, um ano antes de 68, completou-se o trabalho dos primeiros exegetas do Manifesto, e muitos artistas desde então tornaram sua leitura mais desvendada, clara, até epifânica: um banquete vivo que está na mesa sempre, para quem quer ir além e comer um bom P®latão. E o antropófago sem se saber, Euclides da Cunha: ?O martírio do homem é o reflexo de tortura maior, mais ampla, abrangendo a economia geral da vida. Nasce do Martirio Secular da Terra.? anunciou este Martirio soprado nos assovios da balística das guerra ao terrorismo, nas bombas suicidas, nos tsunamis, Katrinas, nas secas Amazônicas, carrapatos empestiados, febres aviárias, aftosas, que é filho da tentativa de catequização da espécie humana. Não deu certo. Felizmente em todos nós da Suécia a Caracas, do Zaire a São Paulo, de Kabul a Pequim, da Líbia a Quixeramobim, de não importa onde até nem sei onde, deve como aqui estar presente uma percepção de que partes do nosso corpo não se deixaram catequisar. Estas partes do corpo se rebelam por uma questão de sobrevivência da espécie e começa a nascer a impressão que somos todos índios, de diferentes tribos, mas índios capazes de um mínimo conhecimento de deus da vida em direto, sem intermediários, pela própria experiência, do nosso corpo não ciivilizado, quer dizer não martirizado. Todos como Antonio Conselheiro, gnósticos broncos, repito, conhecedores de deus pela experiencia de seu próprio corpo. O Tabu dos Tabus para os portugueses e jesuítas e para o HOMEM em geral foi e é comermos nossa própria carne. Oswald no Manifesto é imperativo: ?Ir direto ao Tabú e transformá-lo em Totem? Insiste em seus últimos garranchos de vida em 1954, que estudemos a cosmovisão dos índios antropófagos que acham absurda a atitude dos brancos de desprezar seus entes queridos ou menosprezar a força de seus inimigos enterrando-os. Há uma desmoralização total de todo catecismo global, qualquer que ele seja, que predispõe a Multidão cuspida pelas castas e até os restos bárbaros humanos das próprias pessoas das castas, a encontrar nesse Manifesto a atual nutribilidade desses aforismas. Não são somente os artistas, mas a própria espécie que apodrecendo, no seu limite final de decomposição pode reencontrar o amadurecimento, a atualidade e o sabor regenerador deste Baquete de 77 giros solares.
Qual o sentido da antropofagia e do EIA! acontecer numa cidade como São Paulo ? São Paulo é uma cidade antropofágica ?
A capital do capital do Brasil foi das primeiras cidades que reuniu a orgya de uma multidão mundial de índios massacrados, dos filhos do ?amplexo feroz de vencedor e vencido?, negros escravos, brancos, amarelos, árabes judeus, senhores e servos. Muitos renascidos do genocídio dos catecismos, nos cruzamentos sexuais sentindo correr vivo no sangue amestiçado, um calor de vinho velho, fermentado com o chacoalhar dos quadris dos deuses do ritmo, reinventados pelas Multidões de pele mais escura. A primeira grande Metrópole Colonial, apavorada com a selvageria da Terra dos Trópicos foi acimentando tudo que via pela frente, subindo arranha-céus brancos, árvores de Natal de pinheirinhos do hemisfério norte. Em pleno prenúncio da primeira crise do dólar café, um filho da burguesia, ?um brasileiro atoa, na última etapa do capitalismo? inspirado na própria multidão que sua casta explorava, produziu um Tótem: o da devoração do dominador, o da Antropofagia. São Paulo hoje cercada por sua periferia violenta, devorando seu centro que foje para os bairros condominados, encarcerando-se em Condomínios, repete-se em Paris, Nova York, nos grandes monumentos ocidentais da civilização cercados agora pela Multidão faminta, voraz, esperta, diversa e criadora. Oswald no Manifesto devora Marx, depois de 77 anos, ronda o mundo como um Fantasma desconhecido, mas intérprete deste cerco pagão incendiando, cozinhando para comer, a civilização do mal estar. São Paulo é hoje uma das cidades mais surpreendentes do mundo, para quem quer que a visite e para nós mesmos que a habitamos. É a capital do capital e da sua carinhosa e violenta decapitação.
O que atropelava a verdade era a roupa, o impermeável entre o mundo interior e o mundo exterior, diz no Manifesto Antropofágico, Oswald de Andrade. Nos dias de hoje, você acha que o impermeável ainda atropela a verdarde ? Será que estamos cada vez menos permeáveis e, consequentemente, menos verdadeiros ?
Ao contrário, estamos todos querendo o eterno retorno da nudez, a sabedoria da descivilização dos que vivem aqui e sabem onde estão. No fundo os índios são muto mais ?civilizados? que nós. Cultuam o lugar em que estão como ele está sendo. SER-ESTANDO. E tem uma eterna compreensão de que o público não é simplesmente aquilo que é de todos, pertence a todos, mas principalmente é aquilo aonde os homens se encontram O Trópico do Mundo vai deixando de ter a cabeça onde não está quer no espaço ou no tempo. Vai chegando. O Messias Godot esperado de um dia ficar rico, ir para o céu, para o paraíso socialista, tudo isso vai apodrecendo e virando fermento de um novo vinho. A verdade não está nem nua nem vestida, porque ela não existe, e se existe é logo comida e cagada e prepara o corpo vazio para novos apetites. E assim caminha a humanidade para a negação de si mesma e para afirmação de seu corpo infinito e imortal, sem orgãos.
4) Vamos supor que Oswald de Andrade estivesse vivo. Como você acha que ele veria a antropofagia hoje ?
Oswald está mais vivo que nunca. Sempre querendo comer e ser comido. Não viram que o Abaporú é ele mesmo ? Tarsila entregou tudo quando mostrou esse seu desenho de busca do quadro que acenou para este movimento: este homem roliço e gostoso, com seios de mulher, pau grande, gordinho e relax. Quem não quer comer ? Está vivo no país de dentro, oculto no Padre Marcelo que encontrei outro dia no avião, lindo, enorme, como um Titã, com carisma de ator de teatro de Estádio Oswaldiano. Me deu duas medalhinhas de Nossa Senhra e me disse que eram meus olhos que viam nele sua beleza. Desta época de ser pintado nu por Tarsila ele andou dizendo mais ou menos que somente um Poeta apaixonado como ele poderia menstruar-se como uma mulher.
5) No final do encontro vocês vão preparar um documento com a assinatura de todos que participaram do evento. Qual é o compromisso que se estabelecerá neste documento ? Sei lá. Ele nem foi redigido. Vai ser o que tiver de ser, o que criarmos, vai para o mar num barquinho de oferendas para Iemanjá e para o mundo Cyber. Queremos é botar lenha na fogueira do caldeirão da indiaiada da Terra descatequizando-se e descobrindo-se orgulhosamente preparada para fruir a vida. Antropofagia é lá de assumir compromissos ? Ninguém vai assinar nada, vamos colocar nossas impressões digitais, vamos tatuar, digitalisar sensualmente o papel com nossas marcas. E abrirmos mais nosso apetite para fruir escandalosamente a vida. Esse tempo de guerra, assassinato e massacre, não nos intimida, o que podemos criar e viver é muito mais forte do que tudo que possa tentar nos destruir. A Sabedoria das Indústrias reunidas da Poesia de viver em transformação constante nos traz a paixão de ser estar ser-estando.
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