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UMA COMPLETA OBRA DE ARTE DIONISíACA


30/09/2005

Com manchetes do tipo ?orgia pornográfica? e ?grande enlambuzamento do público?, diversos jornais burgueses da imprensa marrom exaltaram-se há algumas semanas sobre a apresentação do grupo brasileiro Teatro Oficina no Volksbühneem Berlim – um espetáculo que sem dúvida chamou muita atenção. Na verdade, não estavam fazendo mais que um alarde histérico sobre uma espécie de ?instituição para melhorar a civilização? eternamente frágil e de eficácia duvidosa: o teatro ? que sem dúvida desempenha melhor essa função quando, ao invés de se apresentar ao público com ?botões fechados?, prefere ?abrir os botões?, e assim agir não apenas no sentido de ?melhorar?, mas também, digamos, de ?distrair?, com o fim de mudar alguma coisa.

Felizmente nossos colegas da imprensa marrom ? quer por falta de interesse, quer por falta de força física ? não acompanharam até o fim esse teatro total, cujas 24 horas de duração foram divididas em 4 dias de apresentações. Pois do contrário eles teriam ainda muito mais sobre o que escrever e reclamar – por exemplo do jovem que se masturbou ao vivo até gozar de verdade (!), o jorro parecendo um chafariz, ou das sete mulheres que, deitadas no chão em forma de uma estrela, mantinham suas coxas abertas de modo que suas rosadas flores íntimas apareciam …

Mas, voltemos ao objeto que desencadeou essa onda de excitação naquela parcela da população mais aferrada aos valores estúpidos e pouco sofisticados da burguesia alemã. O que se viu foi a adaptação teatral sensacional, abrangente, acima de qualquer crítica, que Zé Celso fez da obra ?Os Sertões?, um ensaio de 700 páginas, cujo autor, o correspondente de guerra Euclides da Cunha, é pouco conhecido na Alemanha, mas no Brasil tem um status quase sagrado. Viajantes interessados, se desejarem, podem conhecer os lugares da vida e trajetória desse escritor.

Do que se trata?

Na metade do século 19, algumas dezenas de milhares de escravos fugidos, pretos, indígenas e pobres estabeleceram-se no sertão espinhoso, numa região de savana excessivamente seca, e foram expandindo suas casas de barro até formar uma pequena cidade. Decidiram escolher como líder Conselheiro, um profeta peregrino quase louco que perambulava pela região. O povoado adquiriu a forma correspondente e passou da autonomia para a anarquia. Surgiu assim um estado renitente dentro do Estado – o que o poder estabelecido, em sua concepção de nação (nesta época, o Brasil era considerado uma jovem república em ascensão) não podia tolerar. E aconteceu o que tinha que acontecer. Em 1897 ? na lendária Guerra dos Canudos – esses ?selvagens? indomáveis foram massacrados pela arrasadora superioridade de doze mil soldados. Não sobrou homem nem ratinho, e acabou o sonho do reino do Céu dos pobres sobre a terra!

Mas as lendas, como se sabe, sobrevivem.

O espaço do teatro Volksbühne ? onde mais em Berlim, senão neste teatro seria possível uma apresentação dessas ? ? foi totalmente reestruturado para servir à peça. Uma pista, que parecia perder-se no infinito, formada por tijolos de barro e argila, seguia da platéia para o fundo do palco, e era ladeada por quatro tribunas provisórias destinadas ao público. Desse modo, os mais de cinqüenta ?atores fixos? do Teatro Oficina (crianças, adolescentes, adultos, e uma famosa anciã [cujo nome infelizmente não foi possível descobrir a partir do programa da peça]) estavam sempre no meio do público, movimentando-se continuamente de um lado para o outro, fazendo música, dançando e atuando. A proximidade com o público era tal que a todo momento havia intensos intercâmbios corporais. Eles deixavam-se tocar ?por nós? e ao mesmo tempo, em troca, ?nos? tocavam. Eram aromas e condutas eróticas desejosas (voluntários) que tomavam o coração de assalto. E, quem olhasse para cima, podia ver tudo isso ? inclusive a si mesmo – numa das quatro telas de vídeo localizadas acima dos assentos… porque sempre, e a todo momento o mais belo dentre os belos cinegrafistas de vídeo deste grupo de teatro – composto de vigorosos jovens e eternamente jovens ? capturava de maneira hábil e discreta os rostos e gestos das ?vítimas? projetadas. Como um todo, essa animada e animalesca movimentação parecia uma verdadeira festa de oferenda a Dionísio ? se não levarmos em conta as cenas destinadas à compreensão básica do enredo, ou seja, as várias cenas longas e desmedidas de falas e coros, as cenas em que se cantava maravilhosamente, e as em que os atores tocavam instrumentos, de maneira ainda mais maravilhosa.

Zé Celso realizou a façanha única de produzir uma adaptação ?um-por-um? deste texto original escolhido por ele mesmo. Sim, e antes que tenha início a ação principal que dá nome a essa grande obra GUERRA NO SERTÃO [em alemão, tanto o livro quanto a peça Os Sertões receberam o título Guerra no Sertão], cujo auge é justamente a lendária batalha de Canudos, desdobram-se as características da natureza, da história e do ser brasileiro, num cosmos repleto de imagens, sons e impressões como nunca antes se viu, ouviu ou vivenciou (o público portanto era constantemente animado a participar da atuação ? e isso funcionou!).

E, no fim desta que foi a vivência original ?clown? mais poderosa e duradoura que o autor dessas linhas já experimentou, a coisa toda talvez possa ser resumida assim: Não há como negar que o teatro, de fato, teve e tem a capacidade de desfazer as distâncias entre ?você? e ?eu?! Sim, o tempo, ali, tornou-se espaço!!


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