PARECER DE Zé MIGUEL WISNIK


15/04/2010

PARECER DE JOSÉ MIGUEL WISNIK PELO TOMBAMENTO FEDERAL DO TEATRO OFICINA

<div align ="justify"> A defesa circunstanciada do tombamento federal do Teatro Oficina, levada a efeito de maneira abalizada pelos pareceres do geógrafo Aziz Ab’Saber e do arquiteto Marcelo Suzuki, merece completar-se com a explicitação de sua relevância artística.

Ao lado de sua inserção original no bairro do Bexiga, cujas características testemunham dimensões profundas da formação cultural de São Paulo, envolvendo a vida popular, os contingentes de imigrantes, a presença do samba e sua marcante vocação de polo teatral, o Teatro Oficina, dirigido por José Celso Martinez Correa, notabiliza-se por uma continuada e irradiadora ação artística que atravessa já cinco décadas da história brasileira. Raros núcleos de intervenção artística terão tido tal fôlego e tal capacidade de responder às mais acidentadas contingências – incêndio, censura, prisão, exílio, abandono, ruína – através da prefiguração e da realização de um projeto arquitetônico ambicioso e, desde o nascimento, voltado para o tecido urbano do qual faz parte. Mais raro do que isso, poucos núcleos artísticos terão sobrevivido à corrosão do tempo, ao anacronismo compulsório e às mudanças avassaladoras do mundo durante o período, com tal capacidade de corresponder ao presente sem descaracterizar-se. O Teatro Oficina só pôde fazê-lo, como entidade artística, ao marcar desassombradamente o seu território na rua Jaceguai, fazendo dele um espaço de rememoração e de antevisão, de consagração e de fermentação cultural, de evocação e invocação da experiência coletiva em processo. É assim que o seu cerco por um projeto de shopping center, com toda a correspondente fenomenologia da massificação comercial e da padronização generalizada dos costumes, destinado a estreitá-lo e a enguli-lo, investe-se de um efeito quase alegórico e, pode-se dizer, teatral, pois presentifica com uma exemplaridade inusitada o conflito, contemporâneo e mundial, entre a uniformização mercantil e as forças da diversificação criativa. Nessa cena, que não é apenas local, embora intensamente localizada, o Teatro Oficina, enquanto entidade artística, comparece com o peso e a autoridade de sua atuação de longo curso, que o credenciam como uma das mais autênticas expressões da vida cultural brasileira. Inclusive por fazer um teatro ligado ao interesse público e capaz de flagrar a vida pública como teatro.

Não é necessário relembrar a importância de espetáculos como Os pequenos burgueses, O rei da vela, Roda viva, Galileu Galilei e Na selva das cidades, todos realizados numa fase anterior à do atual teatro edificado segundo projeto de Lina Bo Bardi e Edison Elito. Este, nasce da maturação da experiência dos anos 60 e 70, que levou a um teatro coral, musical e tecnológico, teatro de pista, em forma de “sambódromo”, querendo abrir-se para um teatro de estádio. A inspiração originária remonta às fontes dionisíacas do teatro grego, palco ideal de As Bacantes de Eurípedes, repensadas através das referências brasileiras do carnaval e do candomblé. É por isso que esse “terreiro eletrônico” e “templo de Apolo erguido a Dionísio andrógino” comporta um jardim interno com plantas e árvores emblemáticas, contém uma fonte, namora com o fogo e seu teto se abre para o céu. Sua dimensão cósmica e caótica – terra, água, fogo e ar – é inseparável de seu escancaramento para o espaço urbano, sua declarada contiguidade com a rua, sua parede lateral de vidro exposta às luzes da cidade. Desenhado como um espaço de permanente passagem, de trocas e de metamorfoses, o Teatro Oficina se declara já, na sua própria configuração, um local de assunção e de problematização da polis, de sua revirada pelas bordas e de uma original atualização do sentido social do dionisismo como expressão das vozes silenciadas pelo controle da cidade – cidade cuja atmosfera total ele quer respirar.

Assim, o Teatro Oficina se constitui num dos mais belos espaços da cidade de São Paulo e num dos mais originais entre os teatros contemporâneos no mundo. Distingue-se por ser a materialização de um pensamento da teatralidade inerente à vida coletiva, e também por ser, não por acaso, indissociável do seu entorno. Nele, já se realizaram espetáculos memoráveis e inauditos, como Ham-let, As bacantes, Cacilda! e Os sertões, todos eles marcados pela espacialidade multidimensional em que se desenvolvem. Se Ham-let e As bacantes foram mergulhos atualizadores e originais em dois dos mais clássicos textos teatrais em todos os tempos, submetidos a relações dialógicas com a situação brasileira, Cacilda! revisita evocativamente a nossa tradição teatral e Os sertões conseguem ser uma colossal leitura do Brasil através do episódio de Canudos e da obra de Euclides, em cinco espetáculos que totalizam vinte e cinco horas de duração (A Terra, O Homem 1, O Homem 2, A Luta 1 e A Luta 2). Mais ainda do que a imponência dos números, fala alto aqui a plasticidade cênica capaz de abarcar a terra e a luta de uma maneira que beira muitas vezes o inacreditável, de dar vida à monumentalidade verbal do texto, e um elenco coral, multirracial e multissocial no qual brilham as crianças do bairro do Bexiga, dando corpo e alma a um dos mais pungentes episódios da vida brasileira e a um dos mais espantosos textos da nossa literatura.

Esses exemplos são suficientes, me parece, para entendermos que estamos diante de uma experiência cultural em seu sentido mais legítimo, mais amplo, mais alto e mais ousado. Nela, o patrimônio material constituído pela edificação, com suas características peculiares, é inseparável do patrimônio imaterial correspondente à sua história e à sua atualidade. A trajetória do Teatro Oficina mobiliza, entre outras coisas, o teatro, a música, a literatura, o trabalho social, a intervenção urbana. É algo que, pelas proporções envolvidas, não cabe em si e não cabe em nós, se formos pequenos. Não é à toa que o olhar penetrante de Lina quis desde há muito furar a parede do fundo do edifício e abrir passagem, como figura real de uma afirmação inequívoca da arte, da vida e das potencialidades humanas represadas. Curiosamente, reeditando uma das cenas arquetípicas do modernismo paulista, o confronto entre o Teatro Oficina e Silvio Santos evoca o embate entre Macunaíma e seu duplo, Venceslau Pietro Pietra guardando a muiraquitã no grajaú Baú da Felicidade. Que precisa se abrir num Anhangabaú da Felicidade.

São Paulo, 02 de março de 2010

José Miguel Wisnik


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