16/09/2005
Animação desenfreada, sexo e ritmos sambados: o Volksbühne de Berlim se ?brasilianiza? com ?Os Setrões? do Teatro Oficina Uzyna Uzona de São Paulo. A peça trata do nascimento do Brasil moderno em um teatro de participação marcado por excessos.
Por EVA BEHRENDT
Devorar ao invés de aniquilar, incorporar ao invés de dissolver, integrar ao invés de repelir. O dramaturgo Matthias Pees, que descobriu o Teatro Oficina no ano passado encrustrado em pleno bairro da Bela Vista em São Paulo e o trouxe para o ?Festival do Ruhr? de Recklinghausen, trazia, em sua bagagem, uma interssante teoria cultural: o conceito brasileiro de Antropofagia. Segundo ela, não só os índios do continente americano enfrentaram os missionários europeus, como também o Brasil moderno se serve no buffet de seres humanos, línguas, religiões e economias estrangeiras para alimentar sua identidade pós-nacional: uma técnica cultural que o sociólogo Ulrich Beck vê como um ?basilianização? que irrompe sobre a Europa.
Com sua obra de 24 horas, ?Os Sertões?, o guru teatral de 68 anos, Zé Celso e seu ensemble teatral, Uzyna Uzona de São Paulo fazem a abertura da temporada do teatro Volksbühne de Berlim, onde talvez nenhuma pessoa seja propriamente devorada, mas algumas outras coisas, sim, simbolicamente… Para o aquecimento coletivo se reunem não só os aproximadamente 40 atores, entre eles, velhos, crianças, adolecentes, mas também o público berlinense, que em outras circustâncias é sempre resistente a participações; ele imita os brasileiros em sua mímica de colher seus corações de seus respectivos peitos para depois consumí-los.
Raras vezes se viu tanto sentimento coletivo desenfreado e tanta emoção teatral na intelectual Volksbühne, que normalmente não nega os excessos. E não é coincidência o fato desse espetáculo não ter sido produzido aqui, mas ter sido importado de longe, do Brasil, atualmente tão festejado na cena teatral alemã. Animação desenfreada, coros grandes, sexo e ritmos sambados: os brasileiros podem! Ou seria imaginável o contrário: que um diretor alemão encenasse o nascimento da nação alemã da perspectiva orgulhosa da província abandonada?
Uma perspectiva patriótica como essa foi assumida por Euclides da Cunha em seu grande ensaio ?Os Sertões? (1902). Engenheiro de espírito progressista e repórter, da Cunha foi enviado para ser testemunha ocular da guerra da jovem república contra o povoado de Canudos na região árida e pobre do Sertão, na qual, índios, escravos e europeus, sob a direção de um pregador carismático, Antônio Conselheiro, negavam a crescente e brutal modernização do país. Assim, no estilo dos historiadores antigos, da Cunha escreveu um Genesis da nação brasileira, repleto de conhecimentos de geografia, de história social e de amor pela pátria. O projeto heróico do Teatro Oficina consiste em levar ao palco os revoluteios de da Cunha em uma inteireza quase enciclopédica, incluindo representações abstratas da fauna, da flora e da geologia descritos no texto.
Assim, o grupo traduz na primeira parte, na primeira noite, os rios grandes com tecidos coloridos e as latitudes com fitas elásticas. Eles se entrechocam como massivos montanhosos e se derramam como águas correntes para o mar. Acocoram-se silenciosos na calma do deserto e batem, rugindo, como as tempestades. Seus membros formam flores de bromélias e seus lábios entoam o gralhar de pássaros. E o público é convidado a participar dessas cenas coletivas bem estruturadas, pulando pra dentro da pista, construida por Elisette Jeremias e Luis Paetow e que ocupou todo o espaço do teatro, do alto da platéia até o fundo do palco. Ainda nessa primeira parte, quando Zé Celso faz o espírito da terra Lulu ser estuprado brutalmente por um ?homem de terno?, ele se coloca inteiramente do lado dos sertanejos e contestadores do progressismo e, como bom ?canibal?, está incorporado evidentemente da técnica do ?inimigo santo?. Cinco telas de vídeo cercam a pista, onde imagens de arquivo pré-trabalhadas são mescladas com imagens ao vivo habilmente mixadas pelo time de vídeo brasileiro, que nada deixa a desejar ao de Frank Carstorf. E quando essas imagens se projetam sobre os dançarinos, quando a percussão, o piano e o baixo realmente ?mandam ver?, quando todo grupo em coro canta a prosa científica e florida de da Cunha, é preciso segurar os pés firmes no chão, se não se quiser deixar contagiar. Não é de se admirar que Zé Celso sonha com um teatro de estádio ? dum teatro marginal para um teatro mundial.
Algo parecido tem em mente o Volksbühne, ainda que sem as fantasias de estádio. Desde que o mais famoso teatro marginal da República (- Democrática Alemã) passou por Recklinghausen e se viu ameaçado com sua ?Rotina e Vaidade? (Carstorf sobre Carstorf), sempre se retorna ali para um terreno exótico. A princípio, isso se deixa integrar bem com os teoremas da globalização e com técnicas culturais antropofágicas, e pode ser baseada na velha e boa solidariedade internacional, como mencionado também na coletiva antes da estréia. Na cena teatral de Berlim esse ciclo de peças fica como um fenômeno de avanço ? finalmente o Teatro Hebbel e o Festival de Berlim se vêem obrigados a abrir-se para grupos internacionais convidados. Isso, se o Volksbühne não só preparar a comida brasileira, mas também abocanhá-la.
Publicado no jornal TAZ nº. 7770 em 16.9.2005, página 20, crítica, EVA BEHRENDT Versão de impressão © Contrapress media GmbH
Traduzido por Danilo Tomic
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