MARIA JACINTHA (lê a carta)
“Será uma das maiores atrizes do Brasil”
Há muito assim me escreve,
o profeta Miroel.
Mas te arrancar da familia,
a mim soava cruel.
Sem a garantia que se deve
temia eu como diretora do TEB.
Paschoal levantou a mocidade para o Teatro
no tempo da sua Direção.
Cabe a mim escolher agora, os que nasceram
realmente com esta vocação.
Você ouviu suas vozes?
CACILDA (tímida)
Não.
Eu quero agora que ouçam,
todas elas.
Ainda era eu criança,
um professor leu minha mão:
“Você vai deixar a dança
por arte em que a voz
será phalação”
MARIA JACINTHA
Tua voz é persuasiva
senti o “como” dissestes.
Dona Ester ficará efusiva!
Amanhã em ouví-la, nos testes.
(hesitando)
Não sei se já a sinto aprovada
ou a sua situação me deixa tocada…
(decidindo)
Aqui está um adiantamento,
200 mil réis.
Pras despesas do momento.
Março já finda.
(abre os braços)
Bem vinda!
CACILDA (à parte dá um leve balido de alegria, beija as notas, tira da bolsa um “album de recordação” com lapisinho amarrado do lado e anota. Chama a mãe e as irmãs olhando pro céu. As irmãs e a mãe aparecem num camarote, como se fosse uma sala do barracão de Santos )
Minha adorada mãezinha,
queriridíssissimas irmãs,
compro um sapatinho branco,
o meu já está no fim.
(a família aprova)
Mando
50 mil réis
para a Cleyde comprar o uniforme.
DIRCE (do camarote – sussurrando)
Não.
(Cleyde reprova em “absolutamente“)
Para tirar o anél da mãe do prego.
CACILDA
60 de mensalidade na Cultura Inglesa
60 para o imprevisto.
Se precisarem com urgência de mais dinheiro,
avisem-me.
Podem estar certas que a Paulistinha dará conta do recado.
Amores!
(o camarote se apaga)