22/08/2009

No meio
Renée Gumiel morreu quando fazíamos a primeira temporada de apresentações das cinco peças que compunham Os Sertões, montagem teatral do livro de Euclydes da Cunha realizada pelo Teatro Oficina entre 2000 e 2007.
Ela tinha quase noventa e três anos de idade e atuava nas cinco peças. E nós, seus companheiros da cena, tivemos que fazer um esforço danado pra admitir aquele corpo ausente. E eu, seu parceiro de cena e amigo, vi naquele dia, que não há idade certa para morrer. Os vínculos criados entre os sobreviventes e o morto são mais determinantes para a qualidade do luto do que a idade de quem se foi. Não dá pra se medir os afetos pelos relógios.
Aquela morte nos deixou numa tristeza imensa que nós vivemos com a intensidade que suportou nossa fraqueza, até o momento em que aquilo tudo se transmutou em adoração quente.
Das Cinzas é um trabalho de adoração para guardarmos Renée à vista de todos. Porque ela morreu dançando, pensando, desejando, fumando, bebendo… Em ação!
Respirar lhe dava prazer.
Então, inspirados por ela, inspiremos seu não-ser até que ele seja ser de novo, em nós. Pra isso servem as entidades de todas as histórias e ritos.
Por isso, dizer que estou chamando Renée para atuar quase três anos depois de sua morte, me parece totalmente natural. Fazer vibrar sua voz, rabiscar seus pensamentos e projetar suas imagens nas paredes da sala que leva seu nome, incorporar seus gestos aos meus movimentos são ações de vivificação e de troca com o que está além.
Pra lá de uma homenagem, esse é um trabalho artístico, no qual o mundo dos vivos e o mundo dos mortos podem dialogam. Tipo de trabalho próprio ao teatro e à arte do ator, o médium entre os artistas.
Nesse limbo é também por onde perambulam os personagens angustiados do texto de Samuel Beckett que se encontram não por acaso à beira-mar.
No meio me posto, e comigo meus parceiros de trabalho, e nesse meio nos movemos ligando o ser e o não-ser. Atuadores-médiuns, sacerdotes do entre-mundos.
Triple Merde!
Aury Porto
agosto 2009
Vida Morte – Morte Vida
A vida é para a gente dar passos em direção ao cosmos. Mas muitos vão sem luz.
Estão fechados na alma, na generosidade. Não respiram, não criam.
Quando vão morrer uma metamorfose cósmica acontece, e a morte vira agora no coração, luz.
Vão embora, voltam para o infinito do amor da vida.
Se vão para o espírito.
Deles não se esquecem os seres que foram suas criações.
Eles ficam na memória. Às vezes com sentimentos de ternura, outras vezes com ódio.
Como as árvores que perdem suas folhas e que voltam a crescer numa nova vida.
Não são milagres, mas a universalidade da vida morte.
Renée Gumiel
janeiro 2006
FICHA TÉCNICA
A partir do texto “Cinzas” de Samuel Beckett
Tradução: Beto Mainieri
Direção: Aury Porto
Assistente de Direção: Ivan Andrade
Elenco: Renée Gumiel (voz e imagem)
Aury Porto (ao vivo)
Paulo César Peréio, Danilo Tomic, Sofia Tomic (vozes)
Figurino: Beto Mainieri
Sonoplastia e Operação de Som: Ivan Garro
Iluminação e Operação de luz: Ricardo Morañez
Espaço Cênico: Aury Porto e Pedro Dacosta Lyra
Pesquisa Iconográfica e Espaço de entrada: Pedro Dacosta Lyra
Oferendas: Pedro Dacosta Lyra, Bia Fonseca e Aury Porto
Vídeos: Gabriel Fernandes, Marília Halla e Oswaldo Sant’Anna
Operação do vídeo: Gabriel Fernandes
Programação Visual: Mariano Mattos Martins
Fotografia e Videografia: Alê Neves, Cacá Bernardes, Lenise Pinheiro, Sérgio Rosenblit, Acervo Renée Gumiel, Acervo Teatro Oficina
Produção: Bia Fonseca
Realização: mundana companhia
Das Cinzas é um trabalho para imantar a Sala RENÉE GUMIEL da Funarte de São Paulo
Serviço
Peça: Das Cinzas
Local: Sala RENÉE GUMIEL – Funarte São Paulo
Endereço: Alameda Nothmann, 1058, Campos Elíseos, São Paulo-SP
Telefone: (11) 3662-5177 / www.funarte.gov.br
Temporada: de 07 de agosto a 06 de setembro de 2009
Sextas e Sábados às 21:00 e Domingos às 20:00
Duração: 60 minutos
Classificação etária: Livre
Ingresso: R$ 10,00 (inteira) e R$ 5,00 (meia)
A bilheteria abre 1 hora antes do início do espetáculo